Thursday, November 5, 2009



Tuesday, August 4, 2009

RAPINA

Depois da leitura do meu texto RAPINA no MASP dentro do projeto letrasemcena ontem, eu PRECISO fazer alguns comentários. Estando no exílio, eu precisava mandar alguém pra testemunhar minha descida de pára-quedas na paulicéia andradiana - a de Oswald, Mário e principalmente, Jorge. Coerente com o que devia estar passando na cabeça de muita gente, minha representante e porta-voz acabou sendo minha irmã. Sim, porque é claro que no afã de acoplar artista com criação, o povo pensava: mas será que E é um retrato autobiográfico da irmã dele? Essa furiosa necessidade de identificar o autor com as suas personagens. Pobre do William, com aqueles quinhentos mil em cena. Quando me perguntaram isso sobre o MESA, eu prontamente disse: mas é claro que eu sou a Fernanda! Todas as nossas personagens são nós mesmos. Isso não parece óbvio? Obviamente inseridas em outros corpos, com outros desejos, mas que refletem os temas que nos incomodam e que nos perseguem. Compreender pela literariedade é um equívoco primário. Mas enfim. Até que no final das contas foi uma boa jogada de marquetchim mandar a irmã. Quem conhece o texto, sabe do que que eu tô falando. O mais divertido - além da peça ter arrancado gargalhadas por si só - foi a apresentação de um autor que ninguém nunca viu! Um ser virtual que abomina tecnologias em geral. Imagino o constrangimento na hora de me identificar perante o público. Não que eu duvide da habilidade de quem tenha feito isso, mas o que é que o povo vai pensar dum cara que primeiro, nem dá o ar da graça, segundo, pesquisa o teatro alemão do século dezoito nos estados unidos e ainda por cima, pra varrer com todo o ilustre academicismo, escreve uma peça onde os objetivos principais de todos os quatro se resumem a: trepar com e destroçar o seu próximo. Via de regra, diferentes próximos. Contradições que só esse pós-modernismo periclitante permite. Como bom pupilo do Bertoldo, vou me usando das armas que o inimigo oferece. E assim, PRBerton arrive dans le nombril du pays. E sobre a peça, ela narra as ligações perigosas entre quatro aves de rapina, o que faz com que obrigatoriamente, existam predadores e presas. O lado animalesco e instintivo dos homens. E da mulher. E só pra perturbar essa gente, dos irmãos. Monstro.

Wednesday, July 15, 2009

KUSHNER SOBRE DRAMATURGOS

Preparando o curso de dramaturgia da CU pro semestre que vem, me deparo com Tony Kushner. Autor da peça mais incensada dos anos 90 - Angels in America - o cara me faz sentir mais na província do que nunca quando aconselha dramaturgos a: 'Read other peoples' plays, be a stage manager, act, sell tickets, hang around thaters, see everything, live in New York so you can see everything, and write plays that are meant to be produced, rather than plays that satisfy assignments in Professor Boodley-boodley's seminar.' Leio feito um cavalo (cavalos leem?), normalmente sou meu próprio stage manager, já atuei (e bem, pelo que dizem), já carreguei ingresso na pasta pra vender, não vejo tudo porque não tem nada pra ver, e já me dou ao direito de selecionar a mercadoria. Agora o tiro no estômago é o 'viva em NY'. Nunca vou saber se teria sido melhor ou pior. Desta vez eu segui fi-el-men-te as coordenadas da mestra. O gosto acre, porém, meio que fica. E mais adiante, aprecio por demais a gula dele - que para alguns é o meu exagero: 'Here's Aeschylus, here's the seven plays. Read these, then go on to Sophocles, go on to Euripides, go on to the Romans, go on to the Medieval Wakefield Cycle, go on to the Renaissance Drama, Spanish Golden Age Drama. Read the commedia notebooks,(...) The Poetics and The Organum once a year!(...) Then work your way up until you hit the gigantic stopping place of Shakespeare and read all thirty-eight plays.(...) You read stuff that people just don't read - for instance Heiner Muller, the more obscure Brecht, the learning plays, all of Beckett,(...). Read Arthur Miller.' O cara é porreta. Não poupa ninguém. E lá pelas tantas, ele abre a chaga desse país: 'We're producing (ianques usariam que outro verbo?) kids who don't know ho to read a hard book or even a newspaper - to read with history (culpa do Fukuyama e sua horda), with critical consciousness, with coherence (é só olhar meu videozinho no meu orkut) and the confidence (yes we can!) that you can understad anything if you ponder it hard enough (preferem jogar beisebol), and the experience that teaches you how essential it is to do that kind of work.' Não preciso dizer mais nada. O nome dele é Tony Kushner.

Tuesday, May 19, 2009

CARDINAL

Pros não iniciados, existem três qualidades básicas que descrevem os seres humanos. Os Fixos são aqueles que repetem sempre a mesma coisa e se satisfazem plenamente com isso. Não se contentando consigo mesmos, tentam atrair ou até gravar a ferro quente as suas crenças e ideologias nos outros. É o marido de Shirley Valentine. Os Mutantes são aqueles pra quem qualquer coisa serve. Estão sempre cambiando de lugar, de humor, de restaurante preferido e de namorada. Não querem se preender a nada e tem pesadelos só de pensar em ficar no mesmo emprego por mais de nove meses. O que parece uma oposição completa ganha o acréscimo da qualidade que chamamos de cardinal. Este é o território dos que estão sempre avançando. Os vorwaertsimmer. Os dois passo pra frente e um pra trás. O verbo deles é conquistar. Assim, numa sequência mística de ir-parar-soltar, tudo acontece. Tudo isso porque ontem, em meio a uma reunião escolar de pais que nem falam a minha lingua, não comem a minha comida e condenam vibradores-surpresa em cestinhas, me dei conta o quão doloroso é ser um ser cardinal. Enquanto pra eles a rotina é certa e garantida (e convenhamos, chata e insossa), pra mim ela talvez nunca vai chegar. Enquanto eles buscam a arvore de natal todo ano no mesmo lugar, eu não sei se caso ou compro uma bicicleta. Enquanto eles sabem que os filhos ficarão na mesma escola por mais uns bons anos, eu me debato pra conseguir equacionar emprego e uma escola waldorf no brasil pras minhas filhas. De um lado, hábitos que se repetem há vinte anos. De outro, vontades que vão se somando e construindo realidades. O marasmo ao lado da fogueira. Ser cardinal é achar que se está sempre no lugar errado. Ou pior, que nenhum lugar será o nosso. O eterno insatisfeito que quer sempre mais. Pra alguns, um problema, pra mim um mérito. Uma etiqueta de coragem e valor. Marianas em São Paulo, Camilas em Espanha, Roseanes no Rio, dançarinos de maracatu da mustardinha no Colorado. Guerreiros incansáveis. Todos eles. Todos.

Monday, April 27, 2009

AS TIAS DE NELSON E A MINHA

Sim, qualquer tia tem tudo pra se encaixar no perfil. Depois de Nelson, nenhuma tia é mais a mesma. Mas tem umas que escapam. O que tradicionalmente se espera de uma tia - e sempre haverá essa dicotomia entre o velho e o novo, seja na Grécia antiga, na corte do rei Otto da Saxonia, em 1932 ou hoje - é que ela seja casada, afetuosa, mantenha um certo contato, nos proporcione primos para com quem brincar e brigar e tenha uma certa sanidade mental, mesmo que disfarçada. Quando criança, das minhas oito tias, apenas uma se encaixava em todos estes pré-requisitos. Não que as outras não tivessem cumprido a função delas, afinal de contas como teria eu de outra forma virado um dramaturgo? Umas fornecem o material dos sonhos, outras oferecem o segredo da felicidade. E algumas outras, os dois. Por isso, que tia! Só a gargalhada exuberante dela contorcendo o corpo já dizia tudo. Ou então as barras de doce-de-leite que ficavam numas latas de vidro numa despensa do lado da cozinha. Ou a obsessão pela atividade intestinal laxativa diária que se não cumprida à risca pelos meus primos era punida com supositórios. (Até que ela não escapa tanto assim do tal perfil rodrigueano-bizarro...) Como todo bom Pedrinho à la Monteiro Lobato, eu passava as férias de verão no interior sob as asas dessa minha tia. Era o paraíso pra quem nelsoniamante estava sempre cercado de mulheres. Comida em doses bem maiores com direito a Q-suco de groselha, futebol de botão de dia e futebol de cancha de areia de noite, e nenhuma missa todo santo domingo. Se saía pouco, ocasionalmente se ia no supermercado do meu tio, e, claro, a idéia de que todas aquelas balas, gomas e bolos eram dele me deixava alucinado. Mas havia rigor, não me lembro de ficar pegando guloseimas das estantes. Eu era o sobrinho preferido, posto que, modestia à parte, venho ocupando há muito tempo para muitos parentes. Subrepticiamente se dava uma tentativa de bertonicização, já que meu contato com a fatia paterna da família era sazonal, e minha repulsa por qualquer filiação genética ou temperamental contrária às minhas expectativas gerava uma reação furiosa. Então, era - e aqui Goethe me persegue mais uma vez - o aprendizado de Wilhelm Meister. Ou, mais apropriado, a italienische reise do alemão. O carinho que ela tinha por mim era imenso, eu era tratado como um filho, ou talvez, um pequeno príncipe, um Hamlet sussu de volta de Wittenberg mas sem nada para reclamar. Ela não ficava em cima, a presença dela era quase técnica, proporcionando os sonhos dos dias de verao. Minha gula se lavava em meio a estrogonofes e maçãzinhas. E o mais surpreendente, pruma família na qual ser artista é uma exceção - nem sempre compreendida - ela pintava quadros. Uma vez, quando mon destin profissional já estava traçado e era pegar ou largar, minha tia me levou orgulhosa pra aula de pintura dela. Era como se dissesse - olha, nós falamos a mesma língua. Vai, vai ser gauche na vida - e eu só fui entender isso agora. Caceta. Mas o que mais deixou ela feliz foi um encontro fortuito com uma amiga dela, numa piscina de clube de cidade do interior, quando fui apresentado como il mio nipote caro. A tal amiga ficou impressionada e arriscou a dizer que eu era mais parecido com ela do que qualquer um dos filhos. Artistas se parecem. Sobrinhos e tias também. Ela certamente não vai entender a minha confissão sentimental. Os mundos são diferentes e distantes. Talvez eu devesse ter mandado o mio babbino caro em vez de tantas palavras em profusão. Talvez. Mas eu só sei me expressar assim. Sempre grato. Sempre.

Monday, March 2, 2009

ARTE PRA QUEM

Olhem soh o que que a gente acha lendo Don Quixote, por exemplo: "pois desde que as pecas se tornaram uma mercadoria, eles (os dramaturgos) se defendem e se defendem dizendo que os empresarios nao comprariam as suas pecas se elas nao fossem escritas na forma comum; e por isso o poeta tenta se enquadrar dentro das exigencias do empresario que eh quem paga pelo seu trabalho." Tudo bem , traducao tosca de uma versao em ingles do texto original em espanhol. O que importa aqui eh a milenar discussao entre a oposicao arte x entretenimento. Lope de Vega e Zeami escreviam pra agradar o publico. Mas que porra eh essa? Bob Wilson constantemente desagrada o publico, e Gerald Thomas idem, mas sao entidades sagradas do teatro. Alguem ve alguma concessao ali? Cervantes, segunda a autora que eu to lendo, falhou porque nao se preocupou com o seu publico enquanto dramaturgo (tudo bem, ele nao tinha muita nocao do que vem a ser uma acao dramatica, mas enfim, Don Quixote deixa elas por elas), mas conceder o primado estetico ao gosto popular cheira muito a pos-modernismo flutuando no esgoto. Uma coisa eh expor as mazelas de esposas de ricos empresarios com cabelos platinados e corpos aspirados que se encontram para tomar coca-cola zero em shoppings centers sem que nenhuma citacao ocorra em quarenta e sete minutos (sim, sou um aristocrata empoeirado e prezo o cha, a mansao e qualquer coisa calorica para acompanhar, os cabelos prateados, os corpos a la Rubens, toda a tradicao dos salons e atividades sociais bem alongadas no tempo), a outra eh achar que uma sociedade pos-industrial tendo aniquilado a capacidade reflexiva de 80% da populacao mundial seja parametro para qualquer juizo estetico. A insistencia no popular quando ideologica eh meritoria, mas quando estetica nao passa de ingenua, populista e incapaz. Aqui no exilio, estou dirigindo Le Jeu de l'Amour et du Hasard, traduzido pro ingles com atores que so falam ingles. Qualquer semelhanca com a Cantatrice de Ionesco talvez nao seja mera coincidencia. Ai, eles, os produtos diretos da sociedade histerica de consumo, se preocupam que a minha concepcao seja muito pouco compreensivel para: a, jovens universitarios, b, cidadaos dos usa, c, qualquer ser humano em geral que nao tenha referencias culturais que vao alem dos anos 80, que parecem ser o limite pra tras, recheados de merda futil (porque a de Werner Schwab eh uma merda de outra estirpe)como reagan, o consenso de washington, miguel jackson e madonna. Meu espetaculo - o que poderia se esperar de alguem que preza Wilson, Thomas e darjeeling? - exige, ou melhor, proporciona um deleite intelectual maior, pra quem reconhece Watteau, Luiz Gonzaga, presidente bush, Mozart, as cores das bandeiras da franca e dos usa, Fragonard e acho que deu. Se eu me preocupo com o publico? Alguem ainda se faz esta pergunta? A solucao, num tempo em que pretensamente nao se tem repostas pra nada, vem de outra entidade, esta mais meridional do que todas. Graca Nunes insistia que o bardo emplacou porque ele agradava tanto o horizonte de expectativa de Joao quanto o horizonte de expectativa de Elizabeth. Os textos/encenacoes dele eram bidirecionados a todo instante. E assim, alguns sentirao um queimaco embaixo, quando Lisette cavalga lambendo o pescoco de Arlequin, outros em cima, quando eles percebem uma reproducao parcial de L'Enseigne de Gersant. No fim das contas, acaba sendo uma arte pra gregos, troianos e pra mim.

Friday, January 9, 2009

AUDIÇÃO

Ouvi essa palavra por muitas vezes quando em companhia da Graça. Tendo vivido não só no estrangeiro, como também nos áureos tempos do teatro gaúcho, quando havia um público mais fiel, menos alienação e a tecnologia não atacava feito um tiranossauro rex, ela por mais de uma vez sugeriu que se fizesse uma para a escolha de um determinado elenco. A ideia me parecia inviavel, porque atores gauchos não estão acostumados com o processo. Acabamos (nós, quem, gavião?) trabalhando sempre com quem temos laços de amizade numa prova declarada do amadorismo da cena porto-alegrense. Contudo a decisão é mais financeira do que qualquer outra coisa. Se não somos contemplados com algum prêmio - e raramente o somos se não fazemos parte do establishment, e aqui uma menção honrosa ao fumproarte que apesar de algumas lamentaveis representacoes no comite, contempla sim projetos de destacada qualidade também - só nos resta chamar alguém que vai trabalhar por amor, pelo aplauso minguado, pela oportunidade de estar em cima do palco sob o refletor. Isso, Porto Alegre. Aqui na Obamaland, bem diferente. Dentro dum departamento de teatro, com uns talvez 150 alunos-atores, o processo de escolha de elenco pras peças que compõem as temporadas passa por uma audição. É o que vai se dar amanhã. Confesso que fico um pouco constrangido sabendo do nervosismo pré-auditivo de muitos ainda adolescentes candidatos a uma vaguinha numa das peças. É uma coisa meio despótica ficar sentado numa confortável poltrona de teatro escolhendo o que mais lhe apraz. Não sei se prum estabelecimento de ensino, isso calha. Porque muitos deles - alunos-atores - ficam de fora, e via de regra, são sempre os mesmos que são escalados...Entendo que é uma antecipação pedagógica do que os espera mais a frente, mas também deveriam tentar acomodar senão todos pelo menos a grande maioria nos espetáculos da "season". Porque não é somente a experiência da audição, mas a experiencia do processo de criação de um espetáculo e o subir no palco e enfrentar uma plateia. Pro meu projeto singelo, que dá oportunidade aos alunos da pós experimentarem o processo de direcao teatral (eu gargalho, mas tento entrar no jogo, afinal, nada mais coerente pra quem está dirigindo Marivaux e o Jeu dele), eu prefiro selecionar os que tiveram poucas oportunidades, porque com 9 refletores, uma sala que tem uma enorme tubulacao dum lado, uma cortina rasgada do outro, só me resta mesmo trabalhar com o ator e proporcionar a eles não só um autor excepcional com o qual eles talvez jamais topariam, e um estilo de ensaio do lado de baixo do equador mas também a chance de experimentarem um processo teatral sério e com um diretor completamente entusiasmado, ambos do começo ao fim.